Foi numa tarde escaldante do verão de 1983 que Junior Mendes chegou ao estúdio com um presente especial para a artista com quem ele estava trabalhando: “Aqui ó, uma fita K-7 que o Tim Maia mandou para você. Ele pediu para entregar e avisar que essa música é para você”. Sandra Sá pensou que aquilo era apenas um trote do amigo, que falou: “Ah é? Então peraí”. Já pegando o telefone, ligou para o amigo Tim e passou a ligação para Sandra: “Ô, Sandra Sá, vê aí que essa música é pra tu... E ainda tem o seguinte, vou cantar contigo, vamos fazer essa música junto”. Sandra, ainda sem acreditar na situação, ouviu a fita e escutou um Tim Maia tocando todos os instrumentos, na canção cujo título resumia perfeitamente o momento que a cantora atravessava: “Vale Tudo”.
Até hoje muita gente pensa que “Vale Tudo” saiu em algum disco de Tim Maia, trazendo a participação de Sandra Sá, no entanto, o que aconteceu foi exatamente o inverso. O sucesso que batizou o disco abre o lado B e ganhou um clipe da TV Globo, produzido para o Fantástico, mostrando Sandra, Tim e a Banda Vitória Régia numa danceteria, dentro de uma inusitada e curiosa estética disco-punk. Hoje, a letra de Tim pode soar careta: “Só não vale dançar homem com homem / Nem mulher com mulher”, mas no final da canção ele avisa em alto e bom tom: “Atenção! Atenção! Foi dada uma nova ordem, liberou geral, agora vale tudo”, com Sandra vindo na sequência: “Vamos nessa que agora vale tudo, vale tudo, tá valendo tudo”.
Influência musical igualmente decisiva para Sandra foi a da Banda Black Rio, que era o time de músicos dos sonhos daquela geração, fosse lançando seus próprios álbuns ou acompanhando feras da música brasileira. Tanto que, após ser contratada pela RGE, Sandra contou com o acompanhamento de músicos egressos da Banda Black Rio e representantes da filosofia criada pelo movimento que batizara o conjunto: Oberdan Magalhães, Claudio Stevenson, Jamil Joanes, Paulinho Black, Barrosinho etc. Além dessa turma, um time da pesada entrou em estúdio com Sandra para registrar Vale Tudo: Robson Jorge, Lincoln Olivetti, Mamão, Leo Gandelman, Marcio Montarroyos, Serginho Herval, Paulinho Braga, Reinaldo Áreas, Macau, Dom Pi, Serginho Trombone etc.
A produção, assim como nos dois LPs anteriores, era de Durval Ferreira, que apresentara Sandra a Macau durante as gravações do álbum de 82. Assim que escutou uma fita demo com “Olhos Coloridos”, Durval conectou a canção ao timbre de voz de Sandra. Daí pra frente foi só celebração, portanto, foi natural Macau trabalhar novamente com Sandra e Durval em Vale Tudo, assinando em parceria com eles o tema de abertura do LP, “Trem da Central”.
Atuando dentro de uma cultura marcada pelo mito da democracia racial, na qual o racismo frequentemente opera pela negação e pela invisibilização, a permanência de Sandra Sá no imaginário popular durante décadas possui importante simbologia — uma mulher preta, suburbana, ligada à música do mundo, afirmando desejo e individualidade na cultura pop nacional. Sua voz poderosamente grave, sua performance de palco e sua postura pública desafiaram padrões normativos sobre feminilidade na indústria cultural. Sandra Sá rompeu muitas regras, barreiras e limites ao construir uma imagem simultaneamente popular, sensual e poderosa, sem se adequar aos padrões hegemônicos do mainstream. Para ela, sempre foi uma questão de vale tudo. Já sua voz, como diz a música, a gente guarda no coração.
Faixas:
A1. Trem da Central 4:02
A2. Candura 3:02
A3. Pela Cidade 3:23
A4. Onda Negra 3:40
A5. Gamação 3:16
B1. Vale Tudo 4:06
B2. Guarde Minha Voz 3:10
B3. Terra Azul 3:33
B4. Musa 2:46
B5. Só 3:24
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